cerejeiro
Eu sentia que era um pouco diferente dos outros. As pessoas festejavam cada aniversário, todo ano a mesma coisa, e eu imaginava quem frequentaria meu velório. Às vezes eu perguntava às pessoas se elas chorariam se eu morresse. Então passei a separar as pessoas em três grupos: um – aqueles que eu tinha certeza que chorariam; dois – as pessoas que mentiram que chorariam, com aquela cabeça meio inclinada para o lado, típica dos farsantes; três – as pessoas que explodiram uma risada na minha cara. Para essas eu dediquei a minha existência, foi atrás dessas que eu fui, todos esses anos. As pessoas que riam na minha cara (às vezes de mim, às vezes comigo). Os camaradas que tinham fé em nada, porque sabem que a fé é um jeito aceitável que aprendemos de duvidar. Onde há fé, existe a dúvida. Você não precisa ter fé no que você sabe que existe, no que é sólido e permanente. Ter fé é acreditar. Acreditando, às vezes, você é feito de bobo.
Gabito Nunes.   (via cerejeiro)